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Uma “Reparação” com hora marcada

A história da “Medeia nacional”, como mencionada pela personagem jornalista feita por Vicente, foge do imaginário já posto na nossa apreensão da realidade: a de um final onde a vítima da morte seria mais uma vez a mulher.

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Foto: Mariana Chama

por Carlos Canarin (ocanariocritico)

A violência contra a mulher em seus diferentes níveis é um problema de saúde pública. Como possibilidade de desemboque das urgências históricas, o teatro contemporâneo também vêm tematizando e reelaborando perspectivas muito dominadas ~ainda?~ por um olhar masculinocentrado, afinal esse é o corpo que historicamente mandou e desmandou na criação subjetiva ~ estou falando do teatro ~ do mundo. Sobre isso, é impossível não referenciar “Prima Facie”, solo de Débora Falabella que integrou a Mostra Lúcia Camargo em 2025 e que dialoga profundamente com “Reparação”, obra dirigida e escrita por Carlos Canhameiro, sobre a qual tentarei lançar um olhar nos próximos instantes.

A ~ ousada ~ proposta de encenação de Canhameiro ao elenco é partir de um cenário corriqueiro ~ mas localizado esteticamente nos anos 80 ~: um salão de beleza. E aí isso nos aguça os sentidos, já que este é um templo da fofoca, da piada, da memória e do encontro entre as mais variadas pessoas. É um estímulo tanto visual, como sonoro e olfativo; é um passeio pela lembrança que temos corporalizada, de tão reconhecível e verossímil. Digo ousada pois todo o desenrolar testemunhal da história se dá a partir desse espaço-tempo do serviço estético, então as palavras e acontecimentos são soltos em meio à feitura de penteados, unhas pintadas e barbas aparadas. Ah, e sem falar da música ao vivo feita no salão, que por vezes serve como transição de cena e mudança de tempo na dramaturgia.

O lance “testemunhal” é o caso de uma violência sexual, um estupro, de uma jovem por dois colegas de escola. Inspirado num caso real ~ são muitos, a todo momento acontecem, na verdade ~ onde, mesmo pressionada pelos pais para abortar, a menina acaba tendo o filho de seu estuprador. Morando em outra cidade, ela resolve voltar para expor a seu algoz a ferida aberta, mas o resultado acaba sendo o inverso. O homem acaba se afeiçoando à criança. Mais tarde, numa tentativa de reparação pela vingança, por tomar algo dele assim como ele a fez, ela assassina o filho.

O que se segue é uma alternância entre depoimentos de personagens que fizeram parte de forma direta ou indireta da história, e de tentativas de reconstruir os acontecimentos, de forma quase novelesca. Se destacam as performances das atrizes Nilcéia Vicente e Marilene Grama, que atingem uma profundidade dramática importante para fincar uma crítica mais contundente à sociedade em geral, na luta contra o ódio que parece ser uma força motriz dentro do espetáculo. Penso que o uso excessivo de testemunhos por um lado nos traz diferentes perspectivas de reconstrução de uma história, intensificando sobretudo seus lados mais conservadores, moralistas e preconceituosos, referenciando histórias como a de Ângela Diniz, por exemplo; de outro, o encontro selado com a repetição da lógica da encenação exposta desde seu início pode torná-la cansativa, somada às várias músicas que são cantadas ao vivo, que poderiam ser diminuídas sem prejudicar o andamento dramatúrgico. Como mencionei acima sobre a estética do salão, imagino por exemplo se de fato a jaca pudesse ser pisada ainda mais, com mais investigação ~ principalmente sonora ~ dessa espacialidade tão instigante.

A história da “Medeia nacional”, como mencionada pela personagem jornalista feita por Vicente, foge do imaginário já posto na nossa apreensão da realidade: a de um final onde a vítima da morte seria mais uma vez a mulher. Essa “solução” de seu sofrimento encontrada pela personagem protagonizada por Grama expõe as fragilidades de um sistema judiciário mas também naturalizado simbolicamente de que nenhuma mudança na estrutura misógina e machista possa efetivamente acontecer, propondo uma ruptura violenta ~ mas, perante ao mundo masculinocentrado, qual seria o caminho mais possível de uma reparação? 

 

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