Colunista
Um quase
Há também bons e felizes acertos: destacaria a iluminação, o cenário, os figurinos e a própria cenografia, que são extremamente belos de serem vistos nessa história
gabriel m barros
Assistir a um espetáculo sempre coloca expectativas em jogo. Se é de uma companhia que já tem alguma estrada na cena cultural, mais ainda. Mesmo assim, meu próprio modus operandi consiste em ir para as peças sem ter visto nada sobre, ou quando é adaptação de algum texto que já conheço, busco, minimamente, recuperar o que sei da obra, porém sem me aprofundar no próprio processo da companhia. Minha ideia é sempre de formar a opinião no contato com o próprio jogo estabelecido. Na maioria dos casos o saldo é bem positivo e interessante.
Feito esse preâmbulo, a indagação: um espetáculo deve falar de tudo? Ou melhor: uma peça deve abarcar tudo? Me parece que numa tentativa de dar uma resposta positiva a isso que Os Satyros estão com a peça Quase todos em cartaz no Sesc 24 de maio.
O mote da encenação é uma temática conhecida: uma família, quatro irmãos, e a trajetória deles. Na realidade a peça inicia mencionando que estão se reencontrando depois de muito tempo, entretanto um deles faltou. A partir daí a peça explora a relação dos pais, como se conheceram; a infância dessas crianças, marcada pela violência familiar, com um pai alcoólatra, mas também social, duma professora que não intervém quando a criança é violentada, ou das feridas emocionais e físicas que adultos causam; acompanha a adolescência e a madureza desses irmãos, o distanciamento deles; também aponta para o futuro deles, o que foram construindo, ou acreditando que construíram.
O fato é que a escolha de abarcar quatro vidas em um espetáculo, ainda tentando amarrar com um debate sobre controle tecnológico da memória, a utilização da IA em algumas cenas, a influência dos influencers, apontamentos para a polarização e o uso político da tecnologia, enfim, essa gama imensa de temáticas acaba perdendo algo e tornando o espetáculo um arremedo de temas, dificultando inclusive de ver o nexo entre essas histórias, tendo como fio condutor que são familiares, única e tão somente. Nesse sentido, boas cenas, como a de um pai que procura esquecer todos os lastros de memória que tem do filho falecido, perdem seu brilho e a própria provocação que a dramaturgia de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquezprocuraram imprimir.
Nesse aspecto, a máxima utilizada em alguns contextos matemáticos, de que “menos é mais”, valeria bastante. A cadência de alguns textos, bem como alguns exageros caricatos tornam o processo de imersão no texto ser interrompido. Obviamente que apontar de fora é complexo, contudo, cortar algumas cenas, reduzir outras, trariam um outro tom para a peça como um todo.
O uso da tecnologia, por exemplo, é uma ferramenta a ser explorada, mas como toda boa ferramenta, precisa dar mais força ao que se faz, e não jogar contra. Ainda assim, a utilização dos telões em algumas cenas para criar a fantasmagoria das pessoas, foi interessante.
Há também bons e felizes acertos: destacaria a iluminação, o cenário, os figurinos e a própria cenografia, que são extremamente belos de serem vistos nessa história. A ideia da nuvem, que é reforçada no cenário várias vezes, e a própria ideia de dissolução que a nuvem trás, também é uma mensagem instigante que o texto trás.
Creio que no saldo, há seus acertos, porém no que fisga o espectador, infelizmente, ainda estamos diante de um quase.

