Cinema
Pesquisa inédita expõe barreiras de acessibilidade nos cinemas brasileiros
Levantamento nacional reúne dados, mercado e sociedade civil e propõe caminhos para inclusão no setor audiovisual
Foto: Divulgação
Um levantamento inédito no Brasil lançou luz sobre os desafios enfrentados por pessoas com deficiência no acesso ao cinema. A primeira edição da Pesquisa Nacional de Acessibilidade nos Cinemas (PNAC) teve seus resultados apresentados em março de 2026, em um evento realizado no Learning Village, em São Paulo, reunindo exibidores, distribuidoras, produtoras, festivais, organizações do terceiro setor e representantes da sociedade civil.
A iniciativa, conduzida pela Acessara — hub de acessibilidade liderado por Amanda Lyra e Alessa Paiva, articula dados e diferentes agentes do setor audiovisual para estruturar uma agenda comum baseada em representatividade, participação, permanência e troca entre públicos diversos.
O encontro foi concebido com recursos de acessibilidade em todas as etapas, incluindo audiodescrição, interpretação em Libras, legendas automáticas e uma equipe treinada em práticas anticapacitistas. A programação contou com painéis que abordaram temas como representatividade, tecnologias assistivas e acessibilidade digital na divulgação de obras.
Diagnóstico: exclusão começa antes da sala de cinema
Os dados apresentados pela PNAC revelam que a exclusão de pessoas com deficiência ocorre desde as etapas iniciais da experiência cinematográfica. Segundo a pesquisa, 60% dos respondentes consideram as campanhas de divulgação dos filmes pouco ou nada acessíveis — índice que sobe para 70% entre pessoas com deficiência visual.
Trailers e comerciais exibidos antes das sessões também apresentam falhas: mais da metade dos entrevistados não identifica recursos de acessibilidade nesses conteúdos, e apenas 12% afirmam que eles estão presentes.
Dentro das salas, o cenário também é preocupante. Quase metade dos respondentes (49%) avalia que as equipes dos cinemas não estão preparadas para atender pessoas com deficiência. Entre esse público, o índice chega a 57%.
As principais barreiras apontadas são comunicacionais (47,5%), físicas (40,5%) e atitudinais (38,2%), evidenciando problemas que vão desde a falta de informação clara até infraestrutura inadequada e despreparo no atendimento.
Como consequência, cerca de 45% das pessoas com deficiência relatam sentimentos de insegurança, desconforto ou exclusão durante a experiência no cinema — número significativamente superior aos 10% registrados entre pessoas sem deficiência.
Representatividade ainda é limitada e problemática
A pesquisa também investigou a presença de pessoas com deficiência nas produções audiovisuais. Para 59% dos respondentes, essa representação é rara, enquanto 15% afirmam nunca vê-la.
Quando presente, a avaliação é majoritariamente negativa: 58% consideram a representação superficial e 39% a classificam como estereotipada. Apenas 20% acreditam que ela é realista e respeitosa.
Durante o evento, especialistas destacaram que a ausência de representatividade contribui para o afastamento desse público dos espaços culturais e reforçaram a necessidade de revisão das narrativas no audiovisual.
Tecnologia disponível, mas pouco conhecida
Apesar da existência de recursos tecnológicos voltados à acessibilidade, a PNAC aponta um baixo nível de conhecimento sobre essas ferramentas. Mais da metade dos respondentes (55%) não conhece aplicativos de acessibilidade para cinema.
Entre os mais citados estão MovieReading (22%), Mload (10%) e Greta (5%). Ainda assim, entre os usuários desses recursos, 43% relatam interrupções por falhas técnicas ou falta de suporte adequado.
A pesquisa também identificou preferências específicas: 77% das pessoas surdas optam por legendas descritivas, enquanto 60% das pessoas cegas utilizam audiodescrição.
Experiência recomendada, mas com ressalvas
Mesmo diante das dificuldades, 70% das pessoas com deficiência afirmam que recomendariam a experiência do cinema, embora com ressalvas e críticas à falta de acessibilidade. Entre pessoas surdas, 15% não recomendariam a experiência, evidenciando falhas mais acentuadas na comunicação.
Caminhos para a inclusão
Com mais de 14 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, o estudo aponta que a exclusão no acesso ao cinema representa não apenas uma violação de direitos, mas também uma perda cultural e econômica.
Entre as recomendações do relatório estão:
capacitação contínua das equipes dos cinemas ampliação da acessibilidade em campanhas e materiais de divulgação investimento e manutenção de tecnologias assistivas promoção de representatividade nas produções comunicação clara sobre recursos disponíveis
“Acreditamos que a inclusão acontece de fato na experiência”, afirmam Amanda Lyra e Alessa Paiva, coordenadoras da pesquisa. “Esperamos que esse estudo contribua para o acesso amplo à cultura, um direito humano fundamental.”
Sobre a Acessara
A PNAC é uma realização da Acessara, empresa formada majoritariamente por pessoas com deficiência e voltada à criação de soluções em acessibilidade. Idealizada por Amanda Lyra e Alessa Paiva, a iniciativa nasce da combinação entre vivências pessoais, trajetórias profissionais e atuação nas áreas de comunicação, cultura e negócios.
A proposta do hub é conectar parceiros e desenvolver estratégias baseadas em dados, inteligência de mercado e responsabilidade social, com foco na ampliação do acesso à cultura e na construção de experiências mais inclusivas.

