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Até quando é possível viver com o coração na boca?

No espetáculo, assuntos profundos são lançados sem tempo de reflexão à plateia. Cortes secos e intensos de questionamentos e flashes de explicações. Fruto da necessidade de tanto por dizer, tanto por oferecer e homenagear.

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Foto: Danton Valério

por Leonardo Talarico

Ode a Domingos de Oliveira. 

A peça CORAÇÃO NA BOCA é ato necessário. 

Inspirada na obra de Godard (película “Pierrot Le Fou”), o espetáculo não tem por escopo adaptar o filme, mas lançar de forma fragmentada questões filosóficas e existenciais do universo do cineasta e experiências próprias.

Desejo, liberdade e fuga atuam sobre as personagens. 

Até quando é possível viver com o coração na boca?

Todos em busca de um sentido existencial.

Um dos temas latentes da sociedade contemporânea.

Obra construída pela necessidade de se falar em primeira pessoa. Atores em ato absoluto de desejo.

Sobretudo, para Priscilla Rozenbaum. 

Não se vive Domingos de Oliveira impunimente. 

Uma das marcas de Domingos é a teatralização do cinema.

Isso fica evidente na forma como as personagens dialogam.

les não abandonam suas características pessoais. O espetáculo usa sobreposição. As personagens sempre 

sabem quem são. No espectro de Domingos, Coração na Boca faz o mesmo em mão que volta. Utiliza o cinema e diversos fragmentos para carregar o público ao confessionário. O espetáculo pode ser assistido por diversos prismas. Pela sinopse, por exemplo. 

Mas acompanhar a peça por meio da relação dos atores com Domingos abre novas camadas. Domingos caminha pela coxia. Todos em cena recolheram saudades, ensinamentos e referências de peito aberto e sem pretensão.

Temos o “Teatro de Ator” entregue à plateia. 

Temos o “Teatro de Companhia” entregue à plateia. 

Personagens costuradas na própria pele. 

A contação da história é horizontal e fragmentada. 

A Direção caminha para um destino filosófico e mambembe. 

Deixa o rigor técnico e abre espaço ao descompromisso. 

Tempo para a Priscilla “comemorar seus sessenta anos”.

A única “distância” entre a peça e Domingos está na realidade versus abstração. Domingos esclarecia assuntos complexos por meio de diálogos de escavação. Relação entre pai e filha, por exemplo, era aprofundada por simples diálogo. Parece fácil, mas tocar as notas certas é um fazer complexo.

No espetáculo, assuntos profundos são lançados sem tempo de reflexão à plateia. Cortes secos e intensos de questionamentos e flashes de explicações. Fruto da necessidade de tanto por dizer, tanto por oferecer e homenagear. 

É sempre bom presenciar atores felizes em cena. E os operadores teatrais da obra seguem igual percurso dando unidade ao espetáculo. Todos montaram a mesma peça.

O cenário demarca o espaço e o expande por cores, materiais e adornos simbólicos. Elementos criativos, festivos e cinematográficos estão bem presentes e amiúde. O figurino é utilitário e veste o despojamento dos atores. A exposição cinematográfica no telão infiltra as personagens nas linguagens pretendidas pela montagem e produz o desejado. 

Tudo conversa e bem se mistura.

O desenho de luz apresenta ambiência e reforça pontos dramáticos de fala e distensão cômica por meio de cortes. 

A dramaturgia é uma idosa sábia com pernas de criança. Brinca de pega-pega com o público. 

A direção de movimento produz e “deixa estar” tudo que não precisa ser perfeito. A técnica serve mesmo para não atrapalhar. A marcação dos atores pula à frente do texto quando deseja “brincar com o público”. Não é uma obra fácil.

É preciso vir aberto às possibilidades postas em cena. 

Não se preocupe em querer entender tudo. 

Há o Teatro posto em cena. 

Há outra intimidade a ser alcançada. Intimidade até em você.

Você não sairá completo se desejar controlar as ações.

Como dizia Arthur da Távola: “a beleza da mulher é o clima dela”. Assista sem o rigor cartesiano e se deixe levar pela ambiência.

Deixe-se perdido, sem controle.

Assista em estado poético!

FICHA TÉCNICA:

Dramaturgia de Felipe Vidal, José Karini e Priscilla Rozenbaum (a partir da obra de Jean-Luc Godard).

Realização: CCBB.

Direção de Felipe Vidal.

Com Priscilla Rozenbaum e José Karini. 

Direção de movimento: Maria Alice Poppe .

Cenografia: Aurora dos Campos .

Iluminação: Tomás Ribas.

Figurinos: Kika Lopes.

Programação visual e videografismo: Eduardo Souza. 

Vídeos: Pedro Carvana.

Assistência de direção: Lucas Barbosa. 

Assistência de cenografia: Rachel Merlino. 

Assistência de figurinos: Rocio Moure.

Assessoria de imprensa: Marcella Freire – Mar Comunicação. 

Redes sociais: Agnes Brichta.

Produção executiva: Alice Botelho. 

Realização: Priscilla Rozenbaum e José Karini.

Onde: Teatro II – Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB RJ). 

Datas: 13 de março a 26 de abril de 2026.

Horários: De quinta a sábado 19h, domingos 18h. 

Ingressos: R$ 30,00 (inteira) R$ 15,00 (meia-entrada).

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