São Paulo
Lampejos 4: Do lado de cá
Há uma ironia mordaz no espetáculo e uma inquietação crescente, pelo menos em mim, que certamente vai se prolongar.
Foto: Sean Hart
Por gabriel m. Barros
No meio do espetáculo a personagem questiona se “Existe um caminho?” e registra que essa é a pergunta mais importante. Tanto o é que reaparece ao longo do espetáculo Do lado de cá, monólogo escrito e interpretado por Dieudonné Niangouna, Dido, que aciona a ideia da autoficção pra bordar um espetáculo que invoca várias explosões (o termo é reiterado) fictícias sim, mas bem reais (aliás só há uma projeção na peça que é de uma longa explosão, ou melhor, do fumaceiro de uma explosão que se prolonga).
Se existe um caminho, obviamente que uma encenação, quando coloca várias ideias para circularem, se expande para vários caminhos. Público e sua recepção torna esse caminho algo muito pessoal, muito próprio, por isso mesmo, amplo e diverso.
E a peça fala sobre teatro, sobretudo. Sobre um teatro feito por um exilado africano em terra francesa. Sobre esse dilema de quem é expulso ou precisa deixar o próprio país: manter essa memória, manter a tradição, resgatar o que havia de melhor do lugar que foi necessário deixar ou negar tudo isso e construir algo novo? E negar a troco de quê? Pelo quê? A própria escolha de qual teatro vivenciar e experimentar é político por si mesmo.
Assim, teatro é político, mas também problema. No meio da peça a personagem enuncia algo como “Eu sou um problema, pois o teatro é um problema” e por se viver vários papéis, Dido se confunde com eles, ao mesmo tempo que o seu “eu sozinho” (invocado várias vezes) quer falar e construir seu caminho. Há assim a personagem e o seu “eu sozinho”, por vezes, ao longo da narrativa (vivência?) o “eu” se perde e fica apenas o “sozinho”.
E apesar de toda a política, da polis, de todo o comunitário, há também a solidão. Ela existe, persiste, engole tudo.
Notem: estou tentando acumular a série de ideias que o espetáculo vai colocando pro público. Dá pra perceber a polissemia de assuntos? Que se mesclam, se confundem e também se distanciam.
No fundo no fundo é repensar o teatro e aquilo que coloca em movimento: a palavra. E nisso Niangouna faz com uma precisão assustadora. Em vários momentos a ênfase em algumas palavras, o prolongamento do S em outras, ou o próprio acelero de algumas frases colocam também em movimento o público. Das peças que acompanhei nessa XI MITsp essa é a que mais aposta no silêncio do espectador, com o mínimo de sonoplastia, e que de fato foi perceptível o incômodo ou inquietação que rondou.
Isso se deve, também, ao corpo do ator. Ora fazia gestos rápidos, mas na grande maioria da peça era apenas um braço que se levantava e ficava estendido, mesmo quando o discurso acelerava.
Há uma ironia mordaz no espetáculo e uma inquietação crescente, pelo menos em mim, que certamente vai se prolongar.
Se no lampejos 2 mencionei a vontade de ficar e ir para a rua, com Do lado de cá minha vontade foi de voltar ao espetáculo, de pegar o texto e revisitá-lo, de ver a peça mais de uma vez. Mas essa também é a imensa sorte do teatro: ele é eterno na sua efemeridade e na maneira como se desmancha no ar e entra nos poros, permanecendo na retina tão fadigada. Aliás, querer voltar é sinal máximo de que uma peça ainda tem elementos que não chegaram de todo pra gente. Talvez nunca cheguem. Daí a necessidade de persistimos, afinal, uma peça se liga na outra.

